Ai, ai...sol, verão, coisa boa, chuva de fim de tarde, pancada forte que leva os detritos da rua e lava a minha alma. Cheiro de chuva. Caminhar por aí e de repente ser surpreendida por torrentes de água, despejadas do céu sem a menor cerimônia e sem a menor chance para o guarda-chuva chinês, desses de 5 reais, que serve ao menos para cobrir minha cabeça. Serve nada, um vento forte vira ele do avesso, as varetas parecendo geléias de metal prontas a escorrer do nylon que as sufoca.
Chuva pedida, esperada. Eu gosto, me dá um frisson...O mormaço toma conta dos dias, das tardes, a gente se arrasta pelas horas sem outra vontade que não a de escapulir da prisão-escritório. Quem merece relatórios, cálculos vetoriais, acordos venais? Quem se conforma com sorrisos medidos, figurino insosso, conference calls com Nova York?
Não eu, nem eu, menos eu e mais meia dúzia de loucos varridos, afeitos ao pulsar dos relacionamentos, dependentes químicos da adrenalina-liberdade. Ir e vir, sem pressa nem hora, embaçar na cama, se nutrir, no café da manhã, com um livro novo, a doçura do pêssego e o olhar pidão do seu cachorro.
É tempo de pêssego, sabia? Variados, coloridos. Prefiro os suculentos, casca aveludada de arrepiar a garganta, delicados quando maduros, macios, quase escandalosos em sua beleza plástica. Modelos de natureza morta. Morta? Nunca concordei com esse termo; meus pêssegos na fruteira não têm nada de morto, são pura expressão de vida, exibindo sem pudor sua luxúria amarelo-avermelhada. Uma dentada e o prazer, que explode, alaga minha boca de carne e mel.
Natureza morta é o atropelo dos dias, o congestionamento angustiante, o sexo mecânico, a falta de alegria. Tédio, tédio, tédio. Tédio que te obriga a se afundar no trabalho para não ter de encarar sua covardia existencial. Que te afaga o ego com brinquedinhos caros e inúteis, cenouras amarradas à sua frente te obrigando a trabalhar mais e mais e mais. Recompensas, recompensas, você especial, você exclusivo, você premium. Você, menino-menina, perdido na floresta das conquistas, louco pra encontrar o caminho de casa.
Vem, menino, que eu te mostro a estrada e sigo com você. Vem que eu te afago bem de leve, te preparo um piquenique com meus pêssegos e te sirvo um beijo com a doçura deles. Vem que eu te ensino o prazer do vento na cara, do andar a pé, da agenda vazia, da tarde repleta de amor. Vem que eu jogo fora seu notebook, sua pressa insana, seu blackberry, sua fome de afeto. Jogo fora também meu guarda-chuva. Porque afinal é verão e não tem nada melhor para revigorar a alma do que se encharcar de sonhos e incertezas.
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